O imigrante alemão no romance brasileiro da segunda metade do século XX

Maria Isabel Edom Pire

Resumo: A partir da noção de acervo com a qual nomeio os romances brasileiros que contam com a imigração como topos – quer de forma central quer de forma lateral -, investigo comparativamente os recursos empregados pelos escritores Charles Kiefer, Salim Miguel e Lya Luft na representação dos embates identitários característicos da relação com o outro. Sobre o imigrante alemão cuja associação mais imediata entre o senso comum e a literatura é aquela relacionada ao trabalho e ao progresso, tratar-se-á de investigar nos romances Valsa para Bruno Stein, Jornada com Rupert e A asa esquerda do anjo a permanência desses paradigmas e a relação com outros discursos que constituem a massa discursiva sobre a imigração.

Palavras-chave: imigração, acervo, choques identitários.

Résumé : C’est à partir de la notion de répertoire, dont nous nous me servons pour qualifier les romans qui ont pour thème principal (ou secondaire) l’immigration, que nous proposons d’analyser, comparativement, la manière dont les écrivains Charles Kiefer, Salim Miguel et Lya Luft mettent en scène les chocs identitaires caractéristiques du rapport à l’autre. L’étude des romans Valsa para Bruno Stein, Jornada com Rupert et A asa esquerda do anjo nous conduira à nous interroger sur le maintien de certains paradigmes représentationnels concernant l’immigrant allemand (travail, progrès etc), ainsi que sur les rapports avec l’ensemble des discours consacrés à ce sujet.

Mots-clefs : Immigration, répertoire, chocs identitaires.

Os romances brasileiros da segunda metade do século XX que tratam mais especificamente da imigração ou que destacam de alguma forma a figura do imigrante constituem hoje um “acervo” cuja leitura amplia a reflexão sobre o deslocamento de um contingente de pessoas que, premidas por circunstâncias econômicas desfavoráveis na Europa, viaja para o continente americano em busca de novas oportunidades. A imigração de se ocupam esses romances tem marcos temporais determinados; motivos centralizadores (expulsores, receptores); e legislação que assegura, reduz ou coíbe os direitos das pessoas que viajam; mas, como todo movimento social, transborda suas circunscrições, fazendo escapar seu objeto, tornando imprecisa a sua apreensão1.
Na literatura brasileira, a partir das décadas de 1970 e 1980, personagens imigrantes figuram com maior densidade psicológica, recebem maior espaço nas narrativas, exercem o protagonismo, no momento em que a segunda e a terceira geração de filhos desses imigrantes relata, em língua portuguesa, sua história e de seus ascendentes. São autores que falam de uma perspectiva, no mínimo dupla, em função da língua materna e da língua por meio da qual se expressam. Cabe a pergunta sobre como esses romances abordam esse movimento, como relacionam seus enredos com tantos outros textos que constituem a massa discursiva sobre a imigração (o normativo, o histórico, o político).
Romances como A república dos sonhos (1984) de Nélida Piñon; O quatrilho (1985), de José Clemente Pozenato; Relato de um certo Oriente (1989) de Milton Hatoum e Nur na escuridão (1999) de Salim Miguel, tomados aqui como exemplos, mostram histórias de famílias espanholas, italianas e libanesas respectivamente que se transladaram para o Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX.
No caso do romance que aborda o imigrante alemão, podemos incluir as obras O guarda-roupa alemão (1970) de Lausimar Laus; A Ferro e fogo: Tempo de solidão (1973) e Tempo de guerra (1975) de Josué Guimarães; A asa esquerda do anjo (1981) de Lya Luft; Valsa para Bruno Stein (1986) e A face do abismo (1988) de Charles Kiefer; A valsa da Medusa (1989) de Valesca de Assis; Videiras de cristal (1990) de Luiz Antônio de Assis Brasil e Jornada com Rupert (2008) de Salim Miguel3.
Com foco em histórias familiares, a produção romanesca de escritores descendentes de alemães ou dos que se propõem a narrar essas pequenas sagas tende a uma uniformização da imagem da Alemanha. Aquilo que seria diverso pela variada origem das famílias dos escritores e dos personagens acaba por ser unificado em referências comuns, como a presença da música erudita, da obra de Goethe, das velhas canções populares. Fala-se de Alemanha como se não houvesse diferenças lingüísticas e fronteiras regionais. As obras, entretanto, resguardam a temática imigratória por meio de um diálogo constantemente estabelecido com o texto histórico.
Assim, aparecem inicialmente temas importantes sobre o imigrante alemão, tais como o desalento dos colonos no Brasil Imperial, conforme problematiza a obra de Josué Guimarães, ou o episódio dos “muckers”, revolta religiosa que contou com a participação dessas pessoas, insatisfeitos com sua situação penosa no sul do país, tema da obra de Luiz Antônio Assis Brasil, ambas citadas acima. São textos paradigmáticos que lidam com os tropeços dos tempos da colonização do sul do país. Cabe lembrar que desde o Império as leis de imigração variam, conforme os interesses políticos, econômicos e também estratégico-militares. No início do século XIX, a legislação previa o povoamento e a colonização da região, dos lugares de fronteira, dos vazios que precisavam de proteção contra as constantes ameaças dos vizinhos do rio do Prata. Esse conjunto de leis incentiva a imigração e permite aos estrangeiros, por exemplo, a propriedade de terras no Brasil, o que mais tarde seria muito criticado por intelectuais brasileiros de exacerbado espírito nacionalista. O que esses dois romances põem à mostra é à custa de quanta frustração essas famílias tiveram de lutar – a ferro e fogo, como expressa Josué Guimarães – para sobreviverem em terra estrangeira. São narrativas também que procuram cobrir longo período, ainda imbuídas de um senso totalizador. Contar aqui significa buscar as origens mais remotas dessa população, apreender os sons de seus dialetos e de seus instrumentos de trabalho e luta.
Estas são duas questões que dizem respeito à colonização. Outros temas decorrentes da imigração alemã, em especial para a região sul do país, são abordados nas obras Valsa para Bruno Stein (1975), de Charles Kiefer; A asa esquerda do anjo (1985), de Lya Luft; e Jornada com Rupert (2008), de Salim Miguel; aqui lidos em comparação4.

Isolamento familiar

Valsa para Bruno Stein é obra que trata lateralmente da questão da imigração, centrada que está no idílio entre um sogro e uma nora. Ocorre que a história se passa no sul do país em um ambiente rural habitado predominantemente por famílias alemãs, resultado da imigração. O oleiro Bruno Stein reúne em torno de si o comando da família e da composição laboral a quem dirige sob a inspiração dos preceitos bíblicos de um lado e sob a mira de Fausto (livro que herdou do pai, escrito em alemão gótico) do outro.
O fluxo de recordações da infância do Stein, destacado na obra, aumenta à medida que ele envelhece. Em sua memória reaparecem a casa “de enxaimel e pedra de granito”, a figura magra da mãe e os sons do violino do pai, músico frustrado e humilde professor primário. A essas recordações, contrapõe-se o presente sensual que vive com a nora, e modernizador, que vislumbra com as esperanças da neta, personagem que projeta uma vida nova na cidade onde pretende cortar o círculo do regime da casa, da religião do avô (calvinista) e da pequena cidade.
As marcas identitárias e as afirmações das diferenças do imigrante alemão e em relação a ele, aparecem acirradas em diálogos dos personagens nos quais são empregadas expressões pejorativas, marcando um choque em que as etnias recebem valorações negativas. “Alemão de bosta! – Negro sujo!”, xingam-se duas personagens em uma mesa de bar. Há um reforço nessa cadeia linguística que sobrevive pela sua repetição. Excesso e a repetição são a regra producente da estereotipia, ensina Homi Bhabha5. O enfrentamento em que se situam os personagens é, pois, citacional e se realiza no discurso.
Outro questão importante para a qual o romance aponta é a da perseguição polílica durante a II Grande Guerra. Bruno foi preso na ocasião. A questão do fechamento da família em relação à língua ensejou a restrição ao livre emprego da língua alemã, resultando em um ato violento e arbitrário.

Os anos da Segunda Grande Guerra tinham sido os mais difíceis, não só pela crise econômica, o racionamento e a expectativa, mas, sobretudo, pela perseguição política. Recordava-se com rancor um episódio daquela época. Um desafeto, que sabia que falavam alemão na intimidade, aproximou-se da residência acompanhado de um sargento getulista, e puseram-se ambos a ouvir a conversação noturna da família. Precavido, Bruno abstinha-se de falar na língua de seus ancestrais mas Olga, porque tinha pouco contato com a língua portuguesa, e porque se recusava a crer que a lei estúpida pudesse vir a ser cumprida, incorria no erro de falá-la. No mesmo instante a casa foi invadida, o sargento de arma em punho gritando que estavam todos presos. Bruno, estarrecido ante o arbítrio, não teve alternativa a não ser convencê-los de que bastava que ele, o chefe da casa, os acompanhasse à delegacia de Pau-d`Arco. Pernoitou numa cela imunda, um cubículo transformado em prisão. O caso valeu-lhe meses de desgostos e entraves na indústria. Dias de agonia, em que remoeu a cólera e chegou ao cúmulo de pensar em adquirir uma arma para proteger a família. Optou, enfim, e com maior acerto, por cães amestrados, para impedir que covardes se aproximasse da casa. A turbulência da guerra amainou, veio o desenvolvimento e o desafogo financeiro, a produção cresceu vertiginosamente, a raiva sumiu sob a euforia do progresso, a lei foi revogada, mas o hábito de ter animais ferozes ficou. Agora eles rondavam a casa, farejando estranhos e espantavam frequentes ladrões de galinha6.

A perseguição alcança o núcleo rural. O romance toca, assim, em um tema caro ao problema dos imigrantes. A questão do “perigo alemão7” retorna com o governo Vargas. Este tema foi debatido entre os intelectuais em função da não-assimilação de núcleos de colonos no início do século. Silvio Romero, por exemplo, crítico exacerbado da colonização alemã, requeria a distribuição dos imigrantes por todo o país, para evitar que o grupo propusesse sua própria independência e para que, afinal, a tese do embranquecimento se efetivasse. As leis, desde o Império, moldam a recepção aos imigrantes. Primeiro, uma política incentivadora promove a vinda dos colonos, anunciando, inclusive, o oferecimento de terras. Mais tarde essa legislação de cessão de terras é modificada em função da abolição da escravatura, momento em que ingressa no país um número muito grande de imigrantes e as colônias passam a não ser bem vistas, justamente pelo isolamento e pelo perigo “político” que representam. Com as campanhas nacionalistas e a presença de adeptos do regime implantado por Adolf Hitler, a perseguição ao grupo se intensificou, com medidas como a proibição da formação de núcleos, do ensino da língua a menores e da circulação de jornais e revistas em língua estrangeira.
É sob a perspectiva do insulamento que o romancista gaúcho enfoca esta família de descendência alemã. Permanecendo na pequena cidade, vivendo de seu próprio sustento, em comunicação com seus compatriotas, anuncia-se o fechamento à integração. A situação oscila também no período da II Grande Guerra, em função da rejeição à figura do imigrante, momento em que a família foi obrigada a silenciar a própria língua. Dessa forma, o livro também mostra essa figura moldada pelo regime exterior, ou seja, pela legislação, pelas formas de exceção, pela recepção e pela rejeição8. Quebrar o isolamento coube à geração mais nova, à personagem neta do oleiro, a qual rejeita a ideia de permanecer no interior e se muda para a capital do estado, rompendo, afinal, com uma linhagem estabelecida a partir dos contornos da insulação.

Exílio particular

No romance A asa esquerda do anjo, de Lya Luft, as referências à cultura alemã fazem parte do universo fechado e rígido com o qual a avó da narradora governa a casa e a família. O fechamento do grupo, manifesto também pela tentativa de manter a língua alemã viva entre eles, leva à inadaptação na personagem Gisela que expressa o sentimento de estar no lugar errado, de ser alguém deslocado, de não pertencer nem a uma pátria nem a outra. Na citação que segue, aparecem a vinda da família, o enraizamento, o isolamento e os conflitos, sobretudo na relação da criança com os colegas de escola. Como pano de fundo aparecem os efeitos da legislação brasileira no período da II Grande Guerra.

– Alemão batata come queijo com barata! – de repente cinco, sete meninos e meninas berravam a mesma coisa no pátio da escola. Entre mim e seus rostos retorcidos de raiva erguia-se o muro do exílio. Que mal lhes fizera, eu que vivia desejando – Me amem, me aceitem?
Numa cidade cujos habitantes eram na maioria descendentes de alemães, o grupo dos “brasileiros”, como os chamávamos, era pequeno entre as louras e rechonchudas crianças de pinturas flamengas.
Nossa família era muito conhecida; minha avó, famosa e antipatizada por causa dos ares de grande dama. Os brasileiros não a suportavam. Ninguém convenceria Frau Wolf de que não fazia sentido exigir que se falasse unicamente alemão com ela, que viera menina para o Brasil e aqui tivera filhos e netos. Esses detalhes não lhe pareciam importantes. Nas lojas só consentia em ser atendida por balconistas que falassem o seu idioma.
Talvez por isso eu era objeto especial das implicâncias de outras meninas que, à semelhança de minha mãe, se chamavam Maria da Glória, Maria de Lourdes. “Nomes para criadas”, dizia minha avó.(…)
– Mas eu nem conheço a Alemanha – respondi, já em prantos. – Tenho nojo de lá, não quero ir para a Alemanha, nunca!
Confusa por sentir que nem renegando coisas sagradas para Frau Wolf eu conquistaria o afeto das outras crianças, procurei ferir também:
– E vocês, que têm sangue de negro?
E saí correndo, cega de lágrimas e roída de pena de mim e das outras, pois nos magoávamos e não sabíamos por quê.
Nesse dia chegando em casa peguei no quarto alguns dos meus livros de história em alemão, com suas princesas louras, fadas boas, a Rainha da Neve. Num acesso de fúria rasguei as páginas, sapateei sobre elas, chorei e gritei até que minha mãe veio correndo me acalmar.(…)
Estávamos em guerra naquele tempo: não eram histórias de livros, mas assunto das conversas dos adultos, das brigas das crianças na escola. Rumores na cidade, notícias em primeira página de jornal.
Meu pai ouvia rádio na sala: uma voz frenética berrava em alemão. Ele sacudia a cabeça preocupado.
Ando assustada nesses meses: sei que há guerra, sei que na terra da minha avó há gente morrendo, parentes nossos também, dizem que o Brasil vai entrar em guerra.
Sinto o mal-estar na família: Por que Otto Wolf se casara com uma brasileira? Não pronunciam a acusação pois todos o respeitam, mas está no ar, na maneira como meu pai segura a mão da mulher enquanto ouvem rádio e aquela sinistra voz discursa.
Não devemos mais falar alemão, alguém ameaça, uma das empregadas diz que vão nos pôr na prisão. Minha avó afirma que é tudo bobagem e continua usando o seu idioma. Meu pai me tranquiliza: “Somos bons brasileiros”, diz.
Também acho que somos, meu verdadeiro nome é Gisela. Gisela Moreira Wolf, no seu exílio particular e na sua guerra secreta9.

Quem narra agora é uma personagem feminina que avalia seu passado e todas as limitações e imposições do ambiente familiar. É desse impasse que nasce a revolta. É esse olhar que mira a matriarca alemã com ódio e admiração. É a partir da casa dessa avó que ela percebe as contingências resultantes do processo imigratório e as peculiaridades do mundo feminino.
De um lado, o romance revolve questões íntimas da vida da menina; de outro, toca em temas caros aos imigrantes, e, em particular, aos imigrantes alemães. A menina desajeitada, sempre se sentindo comparada e, por conseguinte, inferiorizada em relação à prima mais bonita e elegante, experimentará fora de casa outros embates identitários. No território de disputas que é a escola, ela viverá a cisão entre os grupos de alemães e brasileiros, tal como a vê disseminada pela cidade, tal como as pessoas fazem aumentá-la na rua, marcando as diferenças entre sua avó e as outras mulheres.
Mas o mal-estar começa em casa, com a mãe. Ela se pergunta por que o pai se casara com uma brasileira. É uma pergunta que ronda a casa. A família vela à rejeição à nacionalidade de sua mãe. A brasileira Maria da Graça Moreira, mãe de Gisela, não ocupa um lugar definido na casa. Ninguém da família, aliás, possui um lugar previsivelmente seguro na ordem espacial – da casa à cidade; e na ordem social – na família, na escola, na rua. Aparentemente a personagem da avó centraliza o poder, encarnando a nacionalidade alemã e tentando preservá-la, fato que vai se mostrando aos poucos impossível, não sem a dor, sobretudo a dor do exílio de Gisela.
Diante da ameaça da proibição de falar alemão e dos constantes chamamentos identitários a que precisa responder, a narradora opta por um exílio particular e por uma guerra secreta: “meu nome é Gisela Moreira Wolf”, sentencia, aparentemente conciliando os dois mundos.

Jornada solitária

Em Jornada com Rupert, a família de Von Hartroieg, chegada por volta de 1870, em Santa Catarina, enfrentou os ataques indígenas, construiu um casarão de pedras e tijolos, começando a trabalhar inicialmente como agricultores e mais tarde em uma fábrica de tecidos. A construção da obra apoia-se em elementos históricos da cidade de Blumenau – a chegada dos 17 pioneiros, a luta para trazer novos imigrantes, as reuniões nas quais evocavam a velha Alemanha das lendas, das Walquírias e chamavam por histórias que talvez estivessem sendo reinventadas aqui e que fossem diversas da Alemanha de onde eles saíram. Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, comparece na epígrafe e como intertexto valioso para o argumento central. A Lübeck do autor também é a cidade natal da personagem Günther. Vale destacar a outra epígrafe do escritor húngaro e também imigrante que se estabeleceu no Vale do Itajaí, Alexander Lenard. Elas se completam e ampliam os sentidos do livro no que se refere ao tema da imigração e da família, considerando a obra e a vida dos autores.
Rupert é o que contraria aquela ordem imposta em função do trabalho, negando-se a seguir os passos do pai. A personagem retruca a história contada por ele acerca do progresso da cidade, quer falar, por exemplo, do massacre dos índios quando da chegada dos colonizadores. Sua voz, entretanto, fica aplacada pela força das palavras parentais, sempre reafirmando uma identidade alemã: “Achas que as histórias estão todas erradas? Meus avós vieram primeiro para São Pedro de Alcântara, a fim de colonizar, povoar este país de índios e negros, trazendo a nossa civilização, a maior da Europa ”, reafirma a mãe. Rupert será o contraponto para um dos discursos que esteve presente no projeto da elite nacional eurocêntrica e que ecoa ainda pelas palavras familiares. Há uma referência literária importante ao romance Canaã (1902) de Graça Aranha. E por intermédio dessa referência novamente retorna-se ao debate da imigração e da adesão ao nazismo.

Retoma o romance Canaã e se interessa pelo debate travado naquele rincão do Espírito Santo entre dois imigrantes alemães que lhe parecem tão distantes e tão próximos, pois bem poderiam ser as acaloradas discussões entre Günther e Herr Hans, Herr Hans mantendo-se fiel ao que chama de “raça pura”, tendo apoiado a escalada de Hitler, esperando encontrá-lo um dia em Blumenau; e Günther retrucando numa voz firme ser aquilo uma sandice .

Estão postos no trecho, por intermédio da lembrança de Rupert, dois membros da mesma comunidade atualizando a discussão do livro de Graça Aranha datado do início do século, cujo conteúdo polarizava as opiniões entre eles. O trecho sintetiza o que virá explicitado algumas páginas adiante sobre a chegada desses personagens ao Brasil, suas vinculações com o integralismo e a adesão ou não ao nazismo. Na sequência da citação acima, Rupert segue a leitura, procurando vivê-lo como um imigrante alemão, enfatiza o narrador que declara que os dois personagens lhe parecem tão distantes e tão próximos. As discussões entre Günther e Herr Hans atualizam as conversas de Milkau e de Lentz. Herr Hans fiel à “raça pura”, tal como o personagem Lentz. Esse mesmo processo a personagem empregará no último capítulo quando na viagem de trem que o levará para o Rio de Janeiro imagina-se como o seu tio-avô num navio aproximando-se do porto. Se o movimento da personagem é de ruptura com a tradição familiar, são visíveis também esses momentos de oscilação em que se identifica com a figura do imigrante. Na obra, “o que é ser alemão ou brasileiro” é um ponto sempre em pauta, como se lê a seguir:

O que eu quis dizer é que muitos de vocês continuam se considerando “alemães” até a última das últimas gerações. Se a gente diz brasileiro, se zangam, e se dizem filhos de alemães. Se a gente diz alemães vocês gritam minha mães nasceu aqui e meu pai também. Não é preciso nascer num país para ser filho dele. Eu acho que poderia nascer em qualquer canto do globo, mas desde que ouvisse falar no Brasil e para aqui aportasse, me sentiria brasileira, logo, bem logo .

Aqui a discussão gira em torno de nacionalismos exacerbados, próprios do momento político em que se passa a ação do romance. No capítulo “Bar”, Rupert lembra:

Como não brigar? Era de sangue quente, nervos à flor da pele, e os outros vinham provocá-lo. Também porque o tratavam de ‘galego’. Por que galego? Se tudo fazia para ser tão brasileiro ou mais que os outros, pois contrariando o pai havia ingressado, quase às escondidas, numa escola que ensinava português, enquanto os irmãos frequentavam a alemão .

Novamente o olhar incisivo do outro marca aquilo que ele é – galego – em contraposição à identidade supostamente homogênea daquele que acusa. Na restrição definidora do que o outro é a própria definição identitária se apresenta: “somos brasileiros”, logo “não somos alemães”, “não somos estrangeiros” . As personagens movem-se entre identidades baseadas numa concepção de herança , o que determina a força dos conflitos. Para Rupert, o afastamento permite a solução para o conflito. A viagem para o Rio de Janeiro marcará a ruptura com o interior, com as tradições familiares, com os embates que não consegue resolver naquele lugar.

Para finalizar

Na leitura realizada até aqui, os romances não destoam do acervo com o qual se perfilham. A imagem associada ao trabalho pertence também às outras etnias. Ressoam nesses romances a ideia geral da contribuição do imigrante para a construção das cidades e, por extensão, da nação. Esse ideário pertence a um discurso de fundação próprio das primeiras gerações, mesmo que não sejam as de colonizadores. O tópico do trabalho não pertence apenas à literatura, ele compõe com o texto histórico, com o complexo de leis imigratórias, com o ideário, afinal, sobre a imigração. O imigrante é acima de tudo uma força produtiva e essa é a sua condição de sobrevivência e de permanência social, nos ensina Abdelmalek Sayad . A literatura confirma essa condição. A solidez das casas dos protagonistas; o valor dedicado ao trabalho aparente no discurso dos personagens mais velhos; a idéia de uma missão civilizatória no enfrentamento entre pioneiros e nativos – narrada de pai para filho –; a superioridade germânica, sobretudo em relação aos negros, evidenciada em muitos diálogos; indicam que os romances lidam com conteúdos que circulam pelo domínio histórico e político sobre a imigração. É dessa forma que o imigrante foi definido ao sair da Europa, assim foi fotografado e pintado nas telas. É sobre o trabalho que versam suas canções populares. É a sua superioridade física e moral que fará avançar o país, informam as teorias raciais. Da mesma forma, o cruzamento de discursos se esforça por consolidar essa imagem.
No três romances destacados aparece a mesma estrutura do modelo familiar, os mesmos embates identitários, com ênfase em questões como o germanismo, as dificuldades de adaptação, a potencialização da figura do imigrante como trabalhador e a ambigüidade da situação frente às questões da guerra. Fora do lugar, expressando ou não um ideário que alimentava o belicismo, fazendo parte ou não de organizações suspeitas aos moldes da polícia política, os personagens enfrentaram todos a rejeição e o ódio que cabia aos nazistas, como bem mostram a prisão do personagem Bruno Stein, as inquietações da personagem Gisela e os debates entre os personagens de Salim Miguel.
Mas, se há a presença central das famílias, é de dentro delas que surge o desconforto, o deslocamento cultural mais agudo, os embates identitários que se manifestarão no espaço público. É de um lugar duplo que esses descendentes vivem os conflitos, jogados que são nesse espaço que aponta para eles uma definição e exige uma identidade fixa, o que eles estão longe de possuir. As reflexões do velho Bruno, o mal-estar da jovem Gisela e a partida de Rupert dizem sobre outros pertencimentos ou mesmo sobre a instabilidade social e cultural em que se movimentam, apesar da casa sólida, do trabalho, dos mitos fundadores e de todo aparato de refundação da nação, com o qual seus ancestrais aqui se instalaram a ferro e fogo.
Uma das contribuições do romance escrito a partir dos anos 1970 parece ser mesmo o de evidenciar o desajuste, o mal-estar que brota de dentro, próprio do insulamento. Se contribuíram para isso as políticas mal arranjadas da imigração, as barreiras da língua, a forte nucleação dos colonos no sul do país; o romance desse período faz notar a dificuldade de conciliação entre pátrias no coração dos mais jovens, propondo a partida e o rompimento, como uma possibilidade para eles.
A narrativa desse período, por um lado, alcança, como se viu logo no início deste texto, nacionalidades diversas e nisso elas divergem de um sentido totalizante que homogeneizasse a nacionalidade brasileira. Por outro lado, enfoca na segunda metade do século XX uma história da literatura que imprime marcas fundadoras desses grupos como formadores da nação, compondo com o senso comum e com outros discursos um compósito que reforça o projeto político. As narrativas formam, assim, um ato, não propriamente inaugural, mas de inventário da viagem do século XIX para o século XX, mostrando a figura desse deslocamento, que não poucos sentidos imprimiu à cultura brasileira.
Referências bibliográficas

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Notes
Menciona-se aqui o período entre os anos de 1870 e 1930, embora se reconheça um movimento migratório desde o início do século XIX, amparado inclusive por leis de controle imigratório. À imigração em massa a partir dos anos 70 do século XIX corresponde um fluxo de mais de 30 milhões de pessoas. Sobre o assunto: Oliveira, Lucia Lippi, O Brasil dos imigrantes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2002, p. 11; Fausto, Boris, “Imigração: cortes e continuidades”, in História da vida privada no Brasil , Schwarcz, Lília (org.), São Paulo, Companhia das Letras, 1998, vol. 4, p. 16-61.

Assis, Valesca de, A valsa da Medusa, São Cruz do Sul, Movimento/EDUNISC, 2002; Brasil, Luiz Antônio de Assis, Videiras de cristal, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997; Guimarães, Josué. A ferro e fogo I: Tempo de Solidão, Porto Alegre, L&PM, 2006 e A ferro e fogo I: Tempo de Guerra, Porto Alegre, L&PM, 2008; Hatoum, Milton, Relato de um certo Oriente, São Paulo, Companhia das Letras, 1989; Kiefer, Charles, A face do abismo, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1994; Laus, Lausimar, O guarda-roupa alemão, Florianópolis, Ed. da UFSC, 2007; Piñon, Nélida. Vozes do deserto, Rio de Janeiro, Record, 2005; Pozenato, José Clemente, O quatrilho, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985.
Kiefer, Charles, Valsa para Bruno Stein, Rio de Janeiro, Record, 2006; Luft, Lya, A asa esquerda do anjo, Rio de Janeiro, Record, 2010; Miguel, Salim, Jornada com Rupert, Rio de Janeiro, Record, 2008.
Bhabha, Homi, O local da cultura, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2001, p. 106.
Kiefer, Charles, Valsa para Bruno Stein, op. cit., p. 16-18.
Ver sobre o tema Vogt, Olgario Paulo, “O alemanismo e o perigo alemão na literatura brasileira da primeira metade do século XX”, in Signo, Santa Cruz do Sul, vol. 32 n° 53, dezembro, 2007, p. 225-258.
No cinema, o documentário Sem palavras, de Kátia Klock, de 2009, aborda o a situação dos imigrantes alemães durante a II Guerra no Brasil, frente às campanhas nacionalistas do Governo de Getúlio Vargas. A cineasta entrevistou muitos descendentes de alemães, a maioria crianças á época da guerra, revelando as situações de medo, rejeição, entre outros sentimentos experimentados então.
Luft, Lya, A asa esquerda do anjo, op. cit., p. 19-22
Miguel, Salim, Jornada com Rupert, op. cit., p. 96.
Ibid.., p. 90
Ibid., p. 110-111.
Ibid., p. 37-38.
Silva, Tomaz Tadeu da (dir.), Identidade e diferença – a perspectiva dos Estudos culturais. Tradução do organizador, Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 2008.
José Luís Jobim destaca que as exclusões e inclusões “feitas em nome da identidade nacional” são embasadas em questões importantes como as concepções de nacionalismo como pertença e como herança. Na última delas, entende-se que já ao nascer em determinado território, pertencer à determinada raça e falar determinada língua, o indivíduo “adquire o espírito ou a alma do povo a que pertence”. Jobim, José Luís, “Representações da identidade nacional e outras identidades”, in Gragoatá, Niterói, n. 20, 2006, p. 185-197.
Sayad, Abdelmalek, A imigração ou os paradoxos da alteridade, Trad. Cristina Murachco, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1998.