O relato da [des]afiliação e o romance brasileiro da década de 1980

José Leonardo Tonus

Resumo: O presente trabalho busca debater a importância dos relatos de filiação no contexto brasileiro da redemocratização política. Tratar-se-á, aqui, de entender as relações que se operam, nestes textos, entre memória e amnésia histórica, entre tradição e inovação romanesca, entre exumação e impossibilidade de dizer as origens. Se os relatos de filiação nas narrativas de ou sobre imigração prolongam as formas clássicas do romance familiar, do romance das origens e do romance genealógico, eles parecem já carregar consigo as marcas de modernidade órfã e bastarda.

Palavras-chave: Literatura brasileira contemporânea, heranças, genealogias, órfãos, bastardos.

Résumé : Cet article vise à débattre de l’importance des récits sur la filiation dans le contexte brésilien du retour à la démocratie. Dans ces textes, il s’agira de comprendre les relations existantes entre mémoire et amnésie historique, entre tradition et innovation romanesque, entre volonté et incapacité de parler de ses origines. Si les récits sur la filiation prolongent, dans les romans de ou sur l’immigration, les formes classiques du roman familial, du roman des origines et du roman généalogique, ils semblent déjà porter, en eux, les marques d’une modernité orpheline et bâtarde.

Mots-clefs : Littérature brésilienne contemporaine, héritages, généalogies, orphelins, bâtards.

Ao analisar a produção romanesca francesa da década de 1980, o crítico Laurent Demanze constata um retorno a formas narrativas clássicas centradas no questionamento da experiência do eu, o que, segundo ele, atestaria um nítido “refluxo da modernidade” e da “aventura formal e formalista do romance contemporâneo1”. Se este fenômeno, por si próprio, parece-nos pouco relevante, sua amplitude, para além das fronteiras linguístico-culturais francófonas, é significativa.

Um movimento semelhante pode ser observado na produção literária brasileira pós-ditatorial que, face à crise econômica, política e ideológica da década de 1980, passa a interrogar a inscrição do sujeito nacional no conjunto do patrimônio cultural e no devir transcultural da Nação de maneira mais comportada e menos ruidosa. Segundo o crítico brasileiro Silviano Santiago, a perda dos vínculos e da dependência ideológico-partidários nos espaços públicos teria sido determinante na emergência de uma nova postura crítica a partir do final dos anos 1970. Esta nova postura teria obrigado os intelectuais brasileiros a abandonarem seu velho estatuto de salvadores carismáticos da pátria em prol de um trabalho silencioso de mediadores junto a grupos sociais até então silenciados2. Conclusões semelhantes a esta são sublinhadas pela crítica Maria Zilda Cury que, em sua análise sobre o romance brasileiro contemporâneo, pós-ditatorial, distingue a presença de dois eixos temático-estilísticos3. Um primeiro eixo tenderia a encenar a violência urbana e os aspectos perversos da globalização mediante cenas rápidas ou sketches capazes de romper com formas enunciativas consagradas, deslocando técnicas e gêneros narrativos. Tais textos instituiriam um novo olhar vertiginoso sobre o espaço urbano que ganham, nas narrativas, uma feição performática. Um segundo eixo compreenderia, segundo a crítica, textos centrados na recuperação da memória coletiva e individual, elaborada, sobretudo, a partir da recusa da mediação de narradores onipotentes e de estratégias discursivas comportadas.
Ora, se a discussão em torno do local, do nacional ou da precariedade social e histórica do país aponta para o surgimento, ao longo da década de 1980, de novas formas discursivas, como entender a permanência e o retorno, durante este período, de modalidades narrativas clássicas que, tradicionalmente, continuam a se pronunciar pelo e no lugar do outro? Como compreender o sucesso, na década de 1980, dos chamados romances históricos, dos romances de fundação e dos relatos de ou sobre a imigração? Não estaríamos aqui face a um paradoxo, sobretudo, se levarmos em conta a importância que tais romances conferem às questões dos procedimentos sucessoriais?

O presente trabalho busca discutir e questionar a importância da temática da filiação na ficção brasileira pós-ditatorial publicada durante período da redemocratização do país e, em particular, dos chamados relatos de ou sobre a imigração. A partir do estudo dos romances A república dos sonhos, de Nélida Piñon4, Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum5 e As aves de Cassandra, de Per Johns6, tratar-se-á de entender as relações que se operam, nestes textos, entre memória e amnésia histórica, tradição e inovação romanesca, exumação e impossibilidade de reelaboração das origens. Se os três romances aqui selecionados apresentam como eixo temático central a questão da herança e a ruptura dos laços de filiação após o desaparecimento real, simbólico, parcial ou completo de seus elementos transmissores, eles prolongam as formas clássicas do romance familiar, do romance das origens e do romance genealógico. Nesse sentido, eles parecem já carregar consigo as marcas e os vestígios de uma modernidade órfã, parricida e bastarda.

Orfandades

Relato de um certo oriente evoca o périplo de uma narradora (sem nome) de volta à sua cidade natal após um longo período de ausência. Ao visitar Manaus, a narradora busca rever os parentes e tentar, a partir da história de seus antepassados, recompor suas origens. No decorrer do romance, o leitor descobre que sua mãe a abandonou e que esta foi recolhida, juntamente com seu irmão, por Emilie, matriarca da família de imigrantes libaneses instalados na cidade manauara. No entanto, nenhuma informação é fornecida ao leitor quanto à relação entre as duas famílias e ao grau de parentesco que as une.
Em A república dos sonhos, a escritora Nélida Piñon relata a história de quatro gerações de uma família de imigrantes galegos instalados no Brasil desde 1913. Elaborado a partir da multiplicação de pontos de vista, o romance encena, para além das vicissitudes da história do país ao longo do século XX, o processo formador da neta do casal de imigrantes (Breta) em busca de suas origens. Como em Relato de um certo oriente, a descendente (narradora da história familiar) é marcada por um estado de orfandade, decorrente, em seu caso, do abandono do pai após o seu nascimento e da morte da mãe num desastre de automóvel. Como no texto hatoumiano, a busca das origens e o processo formador manifestam-se aqui pela recuperação de um patrimônio cultural coletivo. A narradora assume, ao longo do romance, o papel de legatária e guardiã universal das memórias dos avós expatriados.

Publicado em 1989, o romance Aves de Cassandra, de Per Johns conjuga, à temática da imigração, uma reflexão profunda sobre as consequências da ruptura dos processos de transmissão cultural, mediante, mais uma vez, o motivo da orfandade. Contrariamente aos dois outros romances aqui analisados, o estado de orfandade que vive o narrador-protagonista de Aves de Cassandra não decorre do desaparecimento real dos elementos paterno e/ou materno. Antes, ele é fruto de um relacionamento transgeracional conflituoso, que se intensifica com a crise identitária engendrada pela morte dos pais. A crise identitária que atravessa o narrador posiciona-o numa situação limiar que, no romance, coincide com o início do processo de reconstituição mnemônica e de reelaboração das origens. Este mesmo posicionamento observa-se nos narradores dos romances de Nélida Piñon e de Milton Hatoum, em que a orfandade real define-se de maneira ambivalente. Nestes três romances, ela expressa-se em função tanto do vazio provocado pela ausência e pela perda dos elementos transmissores da herança cultural (os pais), como da dependência obsessiva em relação a esta ausência. Em outras palavras, enquanto capacidade de lembrança e possibilidade de espera, a orfandade exibe, nestes romances, um movimento pendular de repulsa e desejo, de distanciamento e aproximação, que a dinâmica empírica, próxima da investigação policial, e o gesto hermenêutico empreendidos pelos narradores vêm corroborar. Ambos os procedimentos visam tornar inteligível aquilo que já parece desgastado ou degradado pela ação devastadora do tempo.
O trabalho empreendido pela narradora de Relato de um certo oriente aponta para essa dupla perspectiva, e os objetos trazidos em seu alforje durante a viagem a Manaus são significativos nesse sentido. O pequeno álbum de fotografias obtidas na casa de Emilie sugere, à maneira dos biografemas barthesianos, fragmentos da história familiar e individual a serem revelados. O gravador, as fitas cassetes e o caderno de anotações que ela carrega consigo, constituem instrumentos destinados à investigação empírica para “dissecar” e revelar um passado nebuloso situado em épocas e lugares distantes7. Após a morte e o enterro da avó adotiva, a narradora coleta dados, anota informações e questiona parentes e amigos próximos. Ela vasculha suas histórias pessoais a fim de penetrar no espaço íntimo de seus arquivos pessoais : as cartas em árabe da irmã Valérie Boulau destinadas a Emilie, descobertas e lidas pelo tio Hakim; as relíquias da avó adotiva conservadas pela amiga Hindié Conceição; a troca epistolar-fotográfica entre Hakim e sua mãe; os diários nos quais Dorner, o fotógrafo alemão, conservou o relato da viagem do avô ao Brasil.

Do mesmo modo, em A república dos sonhos, Breta investiga a história passada e presente de seus familiares. Ela interroga seus parentes sobre a Espanha e a vinda ao Brasil. Ela os questiona sobre sua atuação na história do país. Finalmente, ela busca reconstituir o destino trágico da mãe falecida e do pai desaparecido. Para obter suas informações, Breta perscruta, à maneira da narradora de Relato de um certo oriente, o conjunto dos arquivos familiares  (medalhas, diplomas, comendas, livros, fotografias, diários, cartas) e tenta, assim, em vão, decifrar os enigmas da história familiar passada, presente e futura. Tal procedimento impõe ao romance um movimento pendular cujo vaivém temporal confere ao texto uma dinâmica elíptica e repetitiva, à imagem das retenções e protensões bergsonianas. Mas os indícios de que se compõem os arquivos vasculhados já não lhe permitem estabelecer o vínculo com os objetos identificados. Adulterados pela força do tempo, habitados por hesitações e equívocos ou, simplesmente, marcados pelo esquecimento e pela ruptura dos procedimentos de sucessão, os arquivos pessoais calaram-se, silenciando verdades suscetíveis de serem desvendadas, como demonstra a cena da consulta do álbum de família.
Breta busca nas imagens observadas indícios que possam revelar a identidade de seus ascendentes. Ela as examina minuciosamente, estuda a composição das cenas, a qualidade do material utilizado, o foco e os modos de exposição das fotografias. Nas imagens, ela procura indícios que lhe parecem, no entanto, cada vez mais enigmáticos. Perante a opacidade e o silêncio dos arquivos familiares, sua investigação (empírica) fracassa.

Sem dúvida, a fotografia na parede envelhecera, apesar da moldura dourada. Unicamente os seus figurantes não envelheceram um dia a mais além do instante em que a máquina os captou, com a intenção de fixá-los no tempo. A superfície, de cor ligeiramente sépia, parecia oscilar como se houvesse, atrás de cada personagem, uma realidade contrária àquela visível a todos. Enquanto eu a olhava, também ela ia questionando o meu direito de atribuir-lhe verdades que seus participantes desconheciam8.

Esvaziados de sua função de conservação e confrontados ao desaparecimento de seus elementos transmissores e/ou reveladores de seu significado, os arquivos familiares surgem nos romances de Nélida Piñon, Milton Hatoum e Per Johns como espaços mortos repletos de hieróglifos e enigmas nunca elucidados.

Ao analisar a presença do regionalismo nos dois primeiros romances de Milton Hatoum, a crítica Tânia Pellegrini observava de que maneira estes textos compartilhavam uma dinâmica narrativa similar. Para a crítica, os dois romances executam “um mergulho vertical nos meandros da memória”, a partir de dois eixos lógicos (o anúncio e o segredo) que, ao longo dos textos, alternam-se e complementam-se sem nunca permitirem o estabelecimento de um “sentido único e definitivo9”. Essa mesma dinâmica narrativa é reconhecível nos romances República dos sonhos e Aves de Cassandra, cujos enigmas derrogam constantemente a ordem lógico-temporal das ações. O mistério que paira sobre o périplo das personagens opera frequentes deslocamentos na macroestrutura dos romances inviabilizando a resolução das tensões acumuladas ao longo das histórias e, até mesmo, o projeto hermenêutico que subjaz às narrativas. As configurações temporais e espaciais, os jogos de focalização, a caracterização das personagens e a própria lógica narrativa confrontam-se aos desvios que se acumulam ao longo dos textos. Tais impasses efetivam o caráter aporético do projeto de reelaboração das origens que nem o apelo às filiações imaginárias é capaz de suprir.

Genealogias

No intuito de recompor sua história pessoal, o narrador de Aves de Cassandra, recenseia, ao longo de seu périplo formador, o conjunto dos membros de que se compõe sua família. À maneira das grandes linhagens bíblicas do Antigo Testamento ou das dinastias reais, ele contabiliza o número de seus ascendentes e descendentes, fornece informações acerca do estatuto social e profissional de cada um deles, indica nomes, sobrenomes, datas e locais de nascimento e de falecimento. Mas suas histórias permanecem silenciosas e, face à ausência de provas tangíveis que possam assegurar a sua veracidade, ele passa a inventá-las :

Diante do impassível (ou será esfíngico?) minhas memórias emudecem. E saem à procura do que não há (mas há, num mistério que se adivinha), transitando à revelia dos modelos, das linhas de força, dos rios principais. (…) Atenho, pois, com minhas memórias, à alma ou negativo da história visível, que frequentemente desmente os fatos. O que nunca aconteceu (ou foi inventado, ou sonhado, ou apenas pressentido), às vezes aconteceu mais do que aquilo que aconteceu de verdade10.

Para o sujeito narrador, o imaginário não se apresenta como uma simples negação ou compensação do real. Ele o concebe, antes, como um espaço limiar, a partir do qual, ele interroga os agentes determinantes na constituição de sua identidade. A cooptação do imaginário instaura um jogo especular entre realidade e imaginação, que acarreta, por sua vez, a atenuação das fronteiras rígidas que separam os regimes de ficcionalidade e de veracidade das dinâmicas biográfica e autobiográfica, que vêm caracterizar a estrutura genérica do romance. No entanto, a cooptação do imaginário não se limita no texto à simples fabulação de histórias relativas à vida dos antepassados do narrador. Seu projeto inclui também o estabelecimento de filiações imaginárias com personalidades ilustres da história universal, autores de renome ou, ainda, com as personagens provenientes do seu gabinete de leitura. Tudo se passa como se o narrador buscasse, perante o vazio provocado por sua orfandade simbólica, um repertório de modelos e posturas a serem seguidos ou rejeitados. Seu gesto explica a multiplicação, ao longo do romance, de citações, alusões e referências a obras consagradas da literatura ocidental e, em particular, àquelas oriundas do universo infantojuvenil. Um lugar de destaque é conferido ao destino amaldiçoado dos marinheiros do Bounty, que o narrador lê e relê incansavelmente, a ponto de integrá-lo em seu relato autobiográfico. Aos infortúnios de William Bligh e de Fletcher Chirstian correspondem, em Aves de Cassandra, o percurso malfadado da voz autoral e o do seu pai, criando, assim, um efeito de sobreimpressão entre experiência pessoal, história familiar e memória intertextual.

Que ecos ficaram desses livros ou pedaços de livros, these fragments i have shored against my ruins, na construção da personalidade? E que personalidade se construiu a partir deles, se é que se pode falar em personalidade a partir de livros ou imaginações; mais certo será dizer que Pê Jota procurou suprir-se nos livros do que lhe faltava na vida; mas talvez não lhe faltasse nada. Ao contrário, com o que lia ou inventava, viveu. E pode-se dizer que viveu intensamente, a ponto de nem reconhecer direito em sua vivência o que era real e o que era meramente livresco ou sonhado11.

Se, como afirma o crítico Moholy-Nagy, a técnica de sobreimpressão pode transfigurar as banalidades em brilhantes iluminações e as singularidades em complexidades significantes12, em Aves de Cassandra, ela é reveladora da frágil identidade do sujeito enunciador. A técnica de sobreimpressão acentua as associações e analogias entre texto e contexto, entre périplo pessoal e memória intertextual. O efeito de superposição instaura relações de contiguidade entre o percurso do narrador-personagem e a trajetória de Robinson Crusoé, nomeadamente no que diz respeito à sua capacidade de transgressão face à autoridade parental. Como Robinson, PJ, alter ego do narrador, busca romper os laços com sua orfandade para instalar-se, finalmente, na situação de bastardo13.
Heranças ilegítimas

As questões relativas à transmissão, à conservação e, sobretudo, à degradação do patrimônio cultural coletivo ocupam em A república dos sonhos um papel fulcral. No romance, o tema degradação do legado cultural coincide com a imigração do protagonista para a América, uma vez que, ao chegar ao Brasil, Madruga, esquece-se da promessa feita a sua avó, de preservar a qualquer custo o legado cultural que lhe fora transmitido. Levado pelo desejo de enriquecimento pessoal, devorado pela culpabilidade e dividido entre tradição e modernidade, ele, encarna desde o início de sua trajetória, o imigrante traidor, ao qual Nélida Piñon confere uma dimensão faustiana.
Diversos segmentos textuais do romance sugerem uma analogia com a série hipertextual da temática faustiana : a inadequação de Madruga ao universo tradicional galego – do qual ele acaba se afastando sem conseguir desligar-se completamente; o recurso aos poderes encantatórios da feiticeira Aquilina, que desvenda a Madruga os mistérios da América e, pela magia, assinala o estabelecimento do pacto demoníaco; a consecução do pacto sob a forma de compromissos entre Madruga e os agentes do poder local político e econômico; o amor de Madruga por Eulália, que o salva da danação eterna; seu apetite sexual excessivo e a negação do objeto feminino; o impulso destruidor e renovador da personagem, que a aproxima das figuras de Ulisses, Cain e Prometeu.
Em A república dos sonhos, Nélida Piñon propõe-nos uma transposição narrativa da temática faustiana através da redução e da transformação genérica de alguns de seus elementos constitutivos. O romance mantém a substância narrativa da temática faustiana sem, no entanto, inscrever-se de maneira restrita na tradição do mito literário. Em outros termos, sem ser necessariamente um sujeito faustiano, Madruga apresenta uma alma faustiana que o confronta ao fracasso da transmissão de um legado cultural, recusado ou adulterado por seus herdeiros naturais.
Antonia perpetua, assim, o desejo de enriquecimento incontrolável do pai. Ela utiliza todos os subterfúgios para assegurar seu direito sobre a sucessão patrimonial, excluindo até a sua própria sobrinha (Breta) do inventário e da partilha testamental. Do mesmo modo, Miguel, o primogênito, reproduz o donjuanismo paterno, que, adulterado, manifesta-se no filho sob a forma de uma compulsiva necessidade de sedução e um constante fracasso nos envolvimentos emocionais. Bento, quanto a ele, encarna o “defensor do progresso da Nação” e segue à risca os preceitos dos seus ancestrais goetheano e splengeriano. Homem voltado para o futuro, Bento, perpetua o pragmatismo imigrante, herdado de Madruga, mas agora no seu aspecto mais excessivo. Para Bento, o bem-estar da estrutura estatal e o progresso do país justificam a manutenção regime militar no Brasil, inclusive a supressão dos direitos dos cidadãos.

– O Brasil precisa é de Itaipu, das usinas nucleares, Carajás, Jari. Para isto, dispensamos tantas idas e vindas ao passado, que nunca foi uma lição de aplicação certeira. Quem é que consulta o passado quando decide o futuro? (…) A história fica bem nos livros, na prateleira. É uma coisa de especialista. Serve para entreter a sanha intepretativa das correntes marxistas. Para efeito de um grande projeto nacional, dispensamos sortilégios verbais dos políticos e dos artistas, que se excusam de enfrentar a realidade dos débitos. Fomos nós, empresários, que contribuímos para que o Brasil se tornasse a oitava potência econômica do mundo. E isto apesar da dívida externa e dos custos sociais. Acaso se constrói uma? Querem saber de uma coisa, fomos nós que planejamos este último advento econômico do país. O que era o Brasil antes da Revolução de 64?14.

Ora, a recusa do legado cultural não se limita, em A república dos sonhos, ao relacionamento conflituoso com o pai. Ela manifesta-se, igualmente, em relação à figura materna, que, no texto, desempenha o papel de guardiã da memória familiar, como demonstra o motivo das “caixas de memória” confeccionadas por Eulália e oferecidas a seus filhos.

Aliás, Eulália dispunha de cinco dessas caixas, todas distintas entre si. Cada qual correspondendo a um filho, e a que só ele tinha acesso. Sem que Madruga jamais a questionasse sobre o que havia dentro. Um material que no futuro permitiria aos filhos contarem suas histórias por meio de fatos ali armazenados15.

Nélida Piñon multiplica, em seu texto, os objetos de memória (relíquias, testamentos, fotografias etc.) mas desprovidos, como nos romances de Hatoum e de Per Johns, de sua capacidade e função testamentárias. Minutos antes de morrer, Eulália entrega as caixas aos seus herdeiros, que, com exceção da Breta, desfazem-se delas ou negam-se a abri-las. A recusa por parte dos filhos e a aceitação pela neta sugerem a ruptura nos processos sucessoriais diretos. Ela implica também a emergência de uma nova lógica transmissora, centrada agora na figura do herdeiro indireto e ilegítimo (órfão ou bastardo) que nega as heranças por simples inércia. Sse, nos três romances analisados, há “passações” de um patrimônio cultural, estas intervêm somente após um longo périplo formador, que culmina na conversão do sujeito-narrador pela e à escrita16. Através da escrita e da reescrita da história individual e coletiva dos antepassados, os herdeiros ilegítimos reservam-se, aqui, o direito de abolir, de substituir e, sobretudo, de reinventar novas alianças, novos laços e novos modelos sucessorias.

Nos relatos de filiação publicados na França e no Brasil, durante os anos 1980, a memória e seus elementos correlatos deixam de ter um aspecto linear e passam a ser analisados em função de sua deterioração, de sua fragmentação e de seu esquecimento. Tais textos expõem, quer seja pela negatividade das heranças ou pelas heranças negativas, a impossibilidade de exumação e de conservação de uma memória individual e coletiva em ruínas. Mais do que o desejo de construção, o que está em jogo nesses romances é o constato de uma fratura corroborada pelos desvios geográficos, temporais e identitários que os próprios textos ficcionalizam. A identidade incerta e frágil do sujeito contemporâneo se erige aqui por um jogo especular compensatório e um movimento hermenêutico incompletos, através do quais ele tenta cavar o seu rastro identitário.
Estas questões ganham destaque particular no contexto literário brasileiro do período da redemocratização. Os chamados romances de ou sobre a imigração elegem a figura do bastardo como chave interpretativa dos procedimentos sucessoriais de conservação, transmissão e reavaliação do patrimônio cultural coletivo. Ora, se a condição da bastardia pode ser definida como um impulso libertário e insolente em relação às redes de transmissão, como explicar, nesses romances, a neutralização de sua dinâmica transgressiva? Como entender o silenciamento dessas figuras literárias perante a perpetuação dos dispositivos excludentes determinantes das relações da alteridade no país? Como esclarecer sua cegueira em relação às transformações socioeconômicas decorrentes da redemocratização do país? Se, como sugere Laurent Demanze, uma parte da produção romanesca francesa pós-1980 aponta para certo “refluxo da modernidade”, no contexto brasileiro, ela se traduz por um discurso conciliador, que, à maneira do processo de anistia, implantado durante o período da redemocratização, tende a anular os contrapontos diferenciadores e a privar o sujeito social de uma crise salutar na investigação e na reapropriação lúcida de seu passado individual e coletivo17.
Referências bibliográficas

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Notes
Demanze, Laurent, Encres Orphelines, Paris, José Corti, 2008, p. 11.
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Piñon, Nélida, A República dos sonhos, op. cit., p. 208.
Pellegrini, Tânia, “Milton Hatoum e o regionalismo revisitado”, in Luso-Brazilian Review, Wisconsin, vol.41, n° 1, 2004, p. 123.
Johns, Per, As Aves de Cassandra, op. cit., p. 4 -5.
Ibid., p. 122.
Moholy-Nagy, László, Peinture, photographie, film et autres écrits sur la photographie, Paris, Jacqueline Chambon, 1993.
Sobre esta questão, ver o estudo de Marthe Robert sobre os romances de Defoe e de Cervantes. Robert, Marthe, Roman des origines et origines du roman, Paris, Grasset, 1972.
Piñon, Nélida, A república dos sonhos, op. cit., p. 639.
Ibid., p. 183.
Segundo o filósofo Pierre Hadot : « Sous toutes ses formes, la conversion philosophique est arrachement et rupture par rapport au quotidien, au familier, à l’attitude faussement naturelle du sens commun ; elle est retour à l’originel et à l’originaire, à l’authentique, à l’intériorité, à l’essentiel ; elle est recommencement absolu, nouveau point de départ qui transmue le passé et l’avenir… (…) Sous quelque aspect qu’elle se présente, la conversion philosophique est accès à la liberté intérieure, à une nouvelle perception du monde, à l’existence authentique ». Hadot, Pierre, Exercices spirituels et philosophie antique, Paris, Albin Michel, 2002, p. 233-234.
Ricoeur, Paul, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris, Le Seuil, 2000, p. 589.