Escolhas inclusivas? A personagem na pena das escritoras brasileiras/paranaenses contemporâneas

Lúcia Osana Zolin

Resumo: A partir de um corpus constituído por narrativas publicadas por escritoras brasileiras/paranaenses pós 1970, tratamos de empreender, nesse ensaio, reflexões acerca das identidades aí representadas, perscrutando questões relacionadas a gênero, orientação sexual, cor, etnia, classe social, entre outras. O aporte metodológico é fornecido por teóricos/as do feminismo crítico, empenhados/as, de um lado, em questionar, no âmbito da literatura, as balizas epistemológicas tradicionais dos discursos hegemônicos, responsáveis pela naturalização das diferenças hierarquizadas de gênero; de outro, empenhados/as em desnudar as práticas discursivas de escritoras, bem como o modo como representam a sociedade e se posicionam frente às suas mazelas.

Palavras-chave: personagem, representação, literatura brasileira contemporânea, autoria feminina, Paraná/Brasil.

Résumé : À partir d’un corpus composé de récits publiés par des écrivaines brésiliennes, originaires de l’état du Paraná et publiées après 1970, nous entreprenons, dans cet essai, une réflexion sur les identités qui y sont représentées, en interrogeant notamment, les questions liées au genre, à l’orientation sexuelle, à la couleur, à l’origine ethnique et à la classe sociale, entre autres. Notre approche méthodologique s’appuie sur des théoricien[ne]s issu[e]s de la critique féministe qui, d’une part, cherchent à questionner, dans le cadre de la littérature, les balises épistémologiques traditionnelles des discours hégémoniques, responsables de la naturalisation des différences hiérarchisées entre les genres, et, d’autre part se proposent de dévoiler les pratiques discursives des écrivaines, ainsi que la façon dont elles représentent la société et se positionnent face au malaise social.

Mots-clefs : personnage, représentation, littérature brésilienne contemporaine, écriture-femme, Paraná/Brésil.

A exclusão da escritora brasileira do cânone literário nacional consiste em um dos principais debates empreendidos pela crítica literária feminista no Brasil. Do mesmo modo, a exclusão de segmentos sociais marginalizados e/ou de minorias do universo representado na literatura legitimada pelas grandes casas editoriais brasileiras tem sido, também, problematizada. Nesse contexto, têm-se problematizado, por outro lado, o fato de, tradicionalmente, como atestam tantas pesquisas realizadas no âmbito da crítica literária feminista, o fato de a mulher ser representada na literatura hegemônica nos moldes como era/é concebida no seio da ideologia patriarcal – silenciada, oprimida, objetificada2. A literatura de autoria feminina, na medida em que vai se consolidando, vai lhe conferindo novos contornos, compondo outros rostos, nem sempre subjetificados3, mas, em sua heterogeneidade, mais próximos da ideia que o pensamento feminista vem construindo em torno da categoria “mulheres”.
A pesquisa cujos resultados parciais tratamos de analisar nesta ocasião caminha no mesmo sentido de diversas outras iniciativas de pesquisadores/as brasileiros/as que se empenham em “resgatar” a produção literária de mulheres em regiões periféricas do país, ocupando-se de publicar antologias, dicionários, entre outras formas de divulgação, que se misturam aos ensaios acadêmicos no sentido de promover-lhe a visibilidade junto ao campo literário nacional. Trata-se de tentar responder questões como: quem são as escritoras brasileiras/paranaenses? O que lhes caracteriza a produção literária? Quais suas opções estéticas e ideológicas? Em que termos representam o contexto de onde emergem? E a mulher? Que lugar ocupa nas páginas que engendram?
Nessas reflexões, ocupamo-nos dessas questões, tomando como corpus um rol de 22 (vinte e dois) romances e 26 (vinte e seis) coletâneas de narrativas curtas, sendo 16 (dezesseis) de contos e 10 (dez) de crônicas, de escritoras paranaenses contemporâneas, publicados a partir dos anos 1970 por editoras comerciais ou por meio de órgãos públicos, como a Secretaria de Estado da Cultura (SEEC). O recorte pauta-se na legitimação que a casa editorial oferece, uma vez que nossa opção metodológica se esquiva da abordagem qualitativa desses textos literários para se valer de aspectos quantitativos, relacionados às opções das escritoras na construção das personagens que lhes compõem as histórias.
De modo mais específico, analisamos os/as protagonistas desses romances, contos e crônicas, perscrutando-lhes aspectos que lhes alicerçam a construção, como sexo, estrato socioeconômico, ocupação, faixa etária, orientação sexual, tipo de relações que estabelecem com outras personagens e época em que estão ambientados/as. Salientamos que se trata da mesma metodologia utilizada por Regina Dalcastagnè, pesquisadora da UNB/CNPq, para delinear o perfil da personagem do romance brasileiro contemporâneo publicado entre os anos de 1990 e 2004, por três grandes editoras brasileiras: Record, Companhia das Letras e Rocco. Os resultados dessa pesquisa de grande fôlego servem, também, de contraponto a essas nossas considerações preliminares acerca da personagem feminina que povoa a ficção de autoria feminina brasileiro/paranaense.
Dentre os aspectos conclusivos dessa pesquisa que mais de perto nos interessam aqui, assinalamos: 1) o fato de os homens contabilizarem 72% dos autores publicados; 2) dentre as 1245 personagens importantes desses romances, 62% são masculinas; 3) dentre os/as protagonistas, 71% são homens; 4) são, também, pertencentes ao sexo masculino 68% dos/as narradores/as; 5) quanto à ocupação das personagens femininas desses romances, quase 50% são donas-de-casa, empregadas domésticas, não têm ocupação, ou não há indícios de sua ocupação.
Como bem assinala Dalcastagnè, no romance brasileiro contemporâneo, escrito por aqueles que possuem legitimidade para produzirem literatura – os homens brancos, cultos, de classe média, oriundos dos grandes centros –, estão ausentes os negros, os pobres, os velhos, os homossexuais, os deficientes físicos e até as mulheres; as chances desses grupos terem voz ali são ainda mais reduzidas: “os lugares de fala no interior da narrativa também são monopolizados pelos homens brancos, sem deficiências, adultos, heterossexuais, urbanos de classe média4”.
A literatura de autoria feminina tem, não raro, sido lida como um lócus privilegiado de reflexão acerca de algumas dessas questões. Isso porque se constitui a partir de outra perspectiva social, nos termos de Iris Marion Young5, fora do ângulo de visão do grupo hegemônico, regulador do chamado senso comum. Como tal, capaz de promover o desnudamento da distância existente entre o modo como a ideologia patriarcal resolve as questões relacionadas à mulher e seus supostos desejos, conferindo-lhe papéis a serem desempenhados e lugares a serem ocupados, e o modo como a própria mulher pensa e sente essas questões. Nesse sentido, há que se salientar que a noção de perspectiva social surge atrelada à ideia de vivência, de experiência vivida e, como tal, implica uma maneira peculiar de ver e de expressar o mundo.
Embora por vezes polêmica – uma vez que a categoria “mulheres” não pressupõe uma identidade fixa, conforme pondera Judith Butler6, afetada que é, além do gênero, pelo entrecruzamento com outros eixos culturais, sociais e políticos –, considerar a perspectiva social feminina no processo representacional que a literatura opera, sobretudo no que se refere ao modo de estar da mulher na sociedade, certamente implica promover importantes ruídos “na medida em que pode desnaturalizar as perspectivas sociais dominantes incorporadas no habitus, forçar seus limites e, assim, gerar mudanças7”.
Assim é que, ao examinarmos a construção do/a protagonista na amostra referida de romances, contos e crônicas de autoria feminina paranaenses, deparamo-nos, conforme se pode verificar na tabela 1, logo abaixo, com um universo que se em parte reduplica certos padrões de representação do senso comum, circunscrevendo, por exemplo, protagonistas brancos/as, em sua maioria de classe média e adultos, chama a atenção para o fato de, nos romances, 77,3% deles/as serem mulheres; nos contos, 46,2%; nas crônicas, as protagonistas somam 61,4%. Isso implica dizer que as narrativas de autoria feminina dessa amostra são protagonizadas, em sua maioria, por mulheres.

Romance    Conto    Crônica    TOTAL
Feminino    77,3% (17)    46,2% (96)    61,4% (305)    57,6% (418)
Masculino    22,7% (5)    38,9% (81)    37,1% (184)    37,2% (270)
Sem indícios    0    14,9% (31)    1,2% (6)    5,1% (37)
TOTAL    100 % (22)    100 % (208)    100 % (496)    100% (726)

Tabela 1 – construída sobre 726 observações, definidas pelo critério: Protagonista & sexo

Há que se considerar, ainda, no caso dos contos, o fato de quase 15% dos/as protagonistas serem construídos/as de modo a não deixarem indícios do gênero a que se ligam. Isso não nos parece um dado gratuito, antes parece apontar para certa tendência de as escritoras minimizarem, nessas narrativas, a importância das hierarquias de gênero. Noutras palavras, ao não deixarem indícios se a voz que fala é masculina ou feminina, elas abrem a possibilidade da equivalência: homens e mulheres partilhando interesses comuns.
Apesar de esses resultados, num certo sentido, serem esperados, já que a literatura de autoria feminina tem se mostrado sensível a fenômenos como o da invisibilidade e o do silenciamento históricos conferidos à mulher, nossa hipótese era a de que, no Paraná, essa prática fosse relativizada, dadas certas conjunturas impostas pelo contexto sociocultural. Como já nos referimos em trabalhos anteriores8, trata-se de um Estado de tradição agrária, constituído a partir de importantes regiões agrícolas e de núcleos coloniais cujas características conservadoras, relacionadas a papéis sociais e de gênero, num certo sentido, ainda subjazem às práticas socioculturais contemporâneas. Como bem esclarece Teixeira, “sob o manto da permissividade, ou do respeito a todas as expressões individuais e coletivas, está um Paraná austero, conservador em suas práticas políticas e sociais, um estado vigilante de seu código patriarcal ”.
No entanto, a romancista paranaense contemporânea traz para o primeiro plano das tramas que engendra figuras femininas que, já num primeiro olhar, parecem deslocadas em relação aos papéis tradicionais femininos e aos esquemas de representação mais recorrentes na arena literária. Não só por figurarem como protagonistas, mas também por assumirem, no âmbito profissional, lugares inimagináveis na pena dos já referidos escritores prestigiados nas grandes casas editoriais. No lugar das tradicionais ocupações femininas que, predominantemente, giram em torno de afazeres domésticos, as protagonistas em questão ocupam-se de variadas funções, menos a de donas de casa ou de empregadas domésticas, apontando para uma espécie de ruído que sugere a desestabilização do habitus, a que se refere Bourdieu, associado aos papéis femininos. São elas advogadas, jornalistas, escritoras, diretoras de produção, farmacêuticas, professoras, modelos, empresárias, balconistas, cantoras, profissionais do sexo e estudantes.
A representação literária da mulher assume, portanto, nesse recorte, matizes contra-ideológicos na medida em que implica a construção de imagens femininas subversivas em relação àquelas erigidas pelo imaginário patriarcal e tornadas legítimas pelas práticas de poder. Um dos sentidos que o historiador italiano Carlo Ginzburg confere ao conceito de representação é o de tornar visível a realidade representada e, portanto, de lhe sugerir a presença . Também para Roger Chartier, o conceito de representação deve ser entendido como instrumento de um conhecimento mediador que faz ver um objeto ausente através da substituição por uma imagem capaz de o reconstituir em memória e de o figurar como ele é .
Nesse caso, o “objeto ausente” – a mulher – é representado não só como capaz de ocupar legitimamente lugares de destaque nas narrativas em questão – o lugar de protagonistas –, como também na sociedade em que se inserem, como profissionais das mais diversas áreas. É, ainda, dotado de voz, já que, nos romances, quase 30% dessas protagonistas acumulam a função de narrar a própria história; nos contos o número de narradoras-protagonistas ultrapassa os 28%; nas crônicas, chega a 33%. Nesse caso, ainda que o número de narradoras protagonistas não pareça muito significativo, há que se destacar o fato de que, no romance e nas crônicas, dentre os protagonistas do sexo masculino (5% e 37,5%, respectivamente), nenhum ocupa a função de narrador da história; nos, contos, apenas 18% deles narram a própria história.

Romance    Conto    Crônica    Total
Protagonista/narradora (feminino)    29,4% (5)    28,1% (27)    33,3% (99)    131
Protagonista/narrador (masculino)    0    22,2% (18)    0    18

Tabela 2 – construída sobre 726 observações, definidas pelo critério: Protagonista-narrador & sexo

Parece que esses resultados nos convidam a pensar, não na simples inversão dos papéis como forma de revide feminista, em que a lógica binária voz x silêncio, tradicionalmente associada a homem x mulher, passa a ser inversamente associada a mulher x homem. E sim no fato já constatado na pesquisa maior a que nos referimos anteriormente (Dalcastagnè, 2008) de que a escolha do sexo das personagens, em certa medida, está relacionada ao sexo do/a autor/a do livro. Escritoras tendem a promover a visibilidade não só da mulher, mas da mulher capaz de narrar, já que, da perspectiva social de que falam, não soa natural a marginalização e o silenciamento históricos que lhe tem marcado a trajetória social. Nesse sentido, ganha importância, por si só, a existência dessas narrativas de autoria feminina paranaenses/brasileiras. Se é no centro das representações que o problema da legitimação do poder se encontra, uma vez que elas suscitam a adesão dos indivíduos aos sistemas de valores representados, essas narrativas, embora não sejam publicadas por grandes editoras nacionais e não circulem, portanto, no campo literário brasileiro, elas se oferecem como alavancas capazes de suscitar questionamentos.
Em Esboço de Uma Teoria da Prática, Pierre Bourdieu pensa o conceito de representação como estratégia de que dispõe o indivíduo para transformar ou conservar estruturas sociais, produzindo-as, reproduzindo-as e/ou legitimando-as. Segundo ele:

tem-se que homens e mulheres constroem representações de si mesmos e explicam suas práticas de acordo com tais representações. Dessa forma, numa sociedade patriarcal, as referidas práticas determinam atitudes de dominação / submissão. A sociedade através da família e depois através de outros canais (escola, religião, meios de comunicação), introjeta nos indivíduos as representações geradoras de atitudes e comportamentos que se mantêm ao longo de suas vidas .

Por esse viés, conforme os dados exibidos na tabela 3, logo a seguir, as representações que as escritoras brasileiras/paranaenses fazem acerca das mulheres nas narrativas que engendram apontam para a quebra do silenciamento feminino e, portanto, para o deslocamento do eixo das tendências hegemônicas, em que a dominação masculina, nos termos de Bourdieu, é abalada .

Romance    Conto    Crônica    TOTAL
Protagonistas Feminino    77,3% (17)    46,2% (96)    61,4% (305)    57,6% (418)
Protagonistas/narradoras Feminino    22,7% (5)    33,7% (29)    33,3% (99)    31,8% (133)

Tabela 3 – construída sobre 418 observações, definidas pelo critério: protagonista feminina & narradora

Sendo, tradicionalmente, no campo literário brasileiro, o lugar da fala ocupado por homens brancos, heterossexuais de classe média, nosso entendimento, diante desses números, não pode ser outro: ao escolher trazer para a cena narrativa quase 32% de protagonistas do sexo feminino imbuídas da missão de narrar a própria história, a escritora brasileira/paranaense confere à mulher, afinal, o direito de falar.
Outro dado que chama atenção nessa amostra diz respeito à orientação sexual das protagonistas dos romances. Em um universo de 22 personagens centrais, duas pelo menos se declaram homossexuais, 9% portanto. Sendo, também, uma delas a narradora da história que se desdobra acerca dos conflitos advindos dessa sua condição. No limite, considerando o tabu que envolve a questão da homossexualidade feminina no âmbito social, bem como o silenciamento da temática na seara literária, trata-se, sim, de um dado relevante. Embora estejamos falando de apenas dois casos, proporcionalmente, eles ganham relevo, já que a amostra é bem pequena – 22 romances, apenas. De qualquer modo, é uma iniciativa que contribui para com a visibilidade e a penetração de perspectivas minoritárias e/ou marginalizadas. Nesse caso, a perspectiva social da/s mulher/es, tradicionalmente silenciada/s e oprimida/s em suas escolhas e orientações, ou, simplesmente, a do outro em relação ao universal masculino.

Trazer, portanto, para o primeiro plano do romance os conflitos da narradora-protagonista circunscritos em torno de sua orientação sexual, dissonante da heterossexualidade dominante, implica, como nos ensina Bourdieu, abrir, via representações, canais de problematização dos esquemas de pensamento dominantes, os quais tem, tradicionalmente, dirigido e/ou coagido a ação e a representação da sexualidade feminina.

Há que se considerar, ainda, segundo essa mesma linha de pensamento, o estrato socioeconômico a que se ligam as protagonistas investigadas: no caso dos romances, 18,2% são da elite econômica, 40,9% são de classe média, mas o que se destaca, todavia é o fato de 36,4% delas serem representantes da classe pobre/baixa; no caso dos contos, 15,9% são da elite econômica, 26,4% são de classe média, 21,6% são da classe pobre/miserável; também nas crônicas, 14,7% são da elite econômica, 59,3% são de classe média, 13,4% são da classe pobre/miserável. No clássico ensaio Pode o subalterno falar? (2010), Gayatri Spivak chama a atenção para a dificuldade de o sujeito subalterno conseguir se autorrepresentar fora do contexto patriarcal e pós-colonial, salientando que quando consegue falar, encontra dificuldades em se fazer ouvir – sua fala permanece subalterna. A pensadora indiana, em vista disso, fomenta as discussões acerca das formas de repressão dos sujeitos subalternos, como a das mulheres pobres que aqui nos interessam, pondo luz na cumplicidade dos intelectuais contemporâneos nesse processo.

Elite econômica    Classes médias    Pobres e miseráveis    Sem indícios    Total
Protagonista do romance
(feminino)    11,8% (2)    52,9% (9)    35,3% (6)    0    17    100%
Protagonista do romance
(masculina)    40% (2)    0    40% (2)    20% (1)    5
Protagonista do conto
(feminino)    17,7% (17)    31,3% (30)    22,9% (22)    28,1% ( 27)    96    100%
Protagonista do conto
(masculina)    19,8% (16)    23,5% (19)    28,4% (23)    28,3% (23)    81
Protagonista do crônica
(feminino)    12,8% (38)    60,3% (179)    13,8% (41)    13,1% (39)    297    100%
Protagonista da crônica
(masculina)    18,3% (33)    59,4% (107)    13,3% (24)    8,9% (16)    180
Total de protagonistas    108    344    118    106    676

Tabela 4 – construída sobre 676 observações, definidas pelo critério: Protagonista & estrato socioeconômico

Ainda que nossas reflexões partam de uma avaliação preliminar, de caráter quantitativo, parece-nos significativos os 35,3% de mulheres pobres que protagonizam esses romances contemporâneos escritos por escritoras paranaenses, bem como os 22,9% e os 13,8 % de pobres e miseráveis que, respectivamente, protagonizam os contos e as crônicas da amostra. Será, talvez, uma tentativa por parte dessas intelectuais de romper com o silenciamento do/a subalterno/a – nesse caso, duplamente subalterno/a: pobre e mulher? Parece que sim. Não há como não considerar esses números um avanço que, em alguma medida, perturba as “verdades” da cultura ocidental, cuja voz dominante silencia de maneira implacável as vozes daquelas que, em virtude de seu gênero e de sua classe, se constituem como o outro.

De qualquer modo, representar mulheres ocupando a posição de maior destaque na narrativa (protagonistas), bem como o lugar da fala (narradoras), além de postos considerados importantes no mercado de trabalho (diferentes das clássicas ocupações relacionadas ao mundo doméstico), ou ainda assumindo uma orientação sexual minoritária, implica um avanço significativo na arena das representações literárias. Ainda que seja bem plausível a explicação de que, em função das perspectivas sociais de onde falam, homens escritores sintam-se mais à vontade para engendrar personagens masculinas e mulheres escritoras, personagens femininas, ainda assim, esses dados marcam uma situação que não pode ser desprezada: a importância da literatura de autoria feminina no questionamento das práticas hegemônicas.
Nesse sentido, a escritora brasileira/paranaense parece se juntar às vozes de seus pares, em âmbito nacional, no sentido de promover sucessivos deslocamentos, no caso dessa investigação, de ordem ideológica em relação às vozes dominantes. Trata-se de fazer emergir vozes femininas imbuídas da missão de lhes salientar a alteridade, não do lado do suposto essencialismo da mulher, legitimamente refutado nos discursos feministas, mas da multiplicidade e da heterogeneidade de interesses, de expectativas e de necessidades. Trata-se, no fim, de provocar ranhuras no discurso fechado de ideologias hegemônicas como a patriarcal e de promover a quebra da continuidade e/ou da simetria entre tradição sociocultural e produção romanesca.
Referências bibliográficas

Bourdieu, Pierre, A dominação masculina, trad. Maria Helena Küher, 4ª ed, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.
—, Esboço de Uma Teoria da Prática, Oeiras, Celta, 2006.
Bonnici, Thomas, Teoria e crítica literária feminista, Conceitos e tendências, Maringá, Eduem, 2007.
Butler, Judith, Problemas de gênero: o feminismo e a subversão da identidade, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
Chartier, Roger, A beira da falésia, A história entre as certezas e as inquietudes, Porto Alegre, EdFRGS, 2004.
—, A história cultural, Rio de Janeiro, Bertrand, 1990.
Dalcastagné, Regina, “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, Cronópios – Portal de literatura e arte. São Paulo, 2007. Disponível em http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2398. Acesso em : 15 de outubro de 2008.
Ginzburg, Carlo, Olhos de madeira, Nove Reflexões sobre a Distância, São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
Miguel, Luis Felipe, “Perspectivas sociais e dominação simbólica: a presença política das mulheres entre Iris Marion Young e Pierre Bourdieu”, Revista Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n. 36, jun. 2010, p. 25-49.
Spivak, Gaiatry Chakravorty, Pode o subalterno falar?, Trad. Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010.
Teixeira, Níncia Cecília Ribas Borges, Escrita de mulheres e a (des)construção do cânone literário na pós-modernidade: cenas paranaenses, Guarapuava, UNICENTRO, 2008.
Zolin, Lúcia Osana, “Escritoras paranaenses: questões de estética e de ideologia”, in Deslocamentos da escritora brasileira, ZOLIN, Lúcia Osana, GOMES, Carlos Magno (dir.), Maringá, Eduem, 2011.
Young, Iris Marion, Inclusion and democracy, Oxford, Oxford University Press, 2000.
Notes
Resultados parciais da pesquisa intitulada “A personagem na literatura de autoria feminina paranaense”, desenvolvido, sob nossa coordenação, na Universidade Estadual de Maringá, com o financiamento da Fundação Araucária, e divulgado no Simpósio Internacional “A literatura brasileira contemporânea” (Université de Paris-Sorbonne – 2012) com ônus da CAPES.
Referente à objetificação, entendida como maneira pela qual indivíduos ou grupos de indivíduos tratam os outros como objetos. É a prática das ideologias patriarcal e pós-colonial de tratar o outro como inferior (cf. Bonnici, 2007).
Relacionado à idéia de sujeito enquanto agente, termo relacionado à teoria feminista poruq subjaz às percepções que a mulher tem de sua identidade e de suas habilidades para assumir sua posição na sociedade e revidar as atitudes e os pressupostos do patriarcalismo (cf. Bonnici, 2007).
Dalcastagné, Regina, “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, Cronópios – Portal de literatura e arte. São Paulo, 2007, p. 2. Disponível em http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2398. Acesso em 15 de outubro de 2008.
Young, Iris Marion, Inclusion and democracy, Oxford, Oxford University Press, 2000.
Butler, Judith, Problemas de gênero: o feminismo e a subversão da identidade, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
Miguel, Luis Felipe, “Perspectivassociais e dominação simbólica: a presença política das mulheres entre Iris Marion Young e Pierre Bourdieu”, Revista Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n° 36, jun. 2010, p. 25-49.
Zolin, Lúcia Osana, “Escritoras paranaenses: questões de estética e de ideologia”, in Deslocamentos da escritora brasileira, Zolin, Lucia Osana, Gomes, Carlos Magno (dir.), Maringá, Eduem, 2011.
Teixeira, Níncia Cecília Ribas Borges, Escrita de mulheres e a (des)construção do cânone literário na pós-modernidade: cenas paranaenses, Guarapuava, UNICENTRO, 2008, p. 68.
Ginzburg, Carlo, Olhos de madeira, Nove Reflexões sobre a Distância, São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
Chartier, Roger, A história cultural, Rio de Janeiro, Bertrand, 1990.
Bourdieu, Pierre, Esboço de Uma Teoria da Prática, Oeiras, Celta, 2006, p. 175.
Bourdieu, Pierre, A dominação masculina, trad. Maria Helena KÜHER, 4ª ed, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.