Apresentação

José Leonardo Tonus, Maria Graciete Besse e Regina Dalcastagnè

Espaço onde se constroem e se validam representações do mundo social, a literatura  constitui igualmente um dos principais terrenos de reprodução e perpetuação de estereótipos e preconceitos, muitas vezes camuflados no pretenso realismo das obras. Cientes disso, diferentes grupos identitários têm reivindicado, cada vez mais, lugar e voz nos espaços de enunciação de discursos, acentuando desta maneira a chamada crise na representação literária. No momento em que se agudiza a consciência de que o criador é socialmente situado, e de que tudo o que ele(a) produz traz as marcas dessa circunstância, a legitimidade de suas representações tornou-se passível de questionamento. Instalada a dúvida, abriram-se na contemporaneidade ranhuras em um sistema em geral bastante uníssono e refratário à presença de grupos sociais diferenciados,  sejam eles constituídos por autores(as) ou por suas personagens. São essas vozes, que se encontram nas margens do campo literário, essas vozes cuja legitimidade para produzir (ou mesmo ser objeto da) literatura é permanentemente posta em questão, que tensionam, com a sua presença, nosso entendimento do que é (ou deve ser) o literário.
Os textos aqui apresentados são resultado do colóquio A Literatura Brasileira Contemporânea, realizado na Université de Paris-Sorbonne em janeiro de 2012. Ao reunir pesquisadores de diferentes instituições internacionais, o colóquio tinha como intenção questionar alguns dos problemas considerados relevantes no interior do conjunto literário brasileiro contemporâneo, especialmente no que diz respeito à presença, ao silenciamento e às formas de representação destes grupos sociais diferenciados. Neste sentido, ele marcava uma continuidade dos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília e pelo Grupo de Estudos Lusófonos do CRIMIC (Centre de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes Ibériques Contemporains ) da Université de Paris-Sorbonne acerca das relações e imbricações entre o fazer literário e o mundo social.
A literatura brasileira contemporânea é heterogênea e de difícil definição. Ainda assim, algumas tendências são claras em seu interior. Ao lado de um conjunto majoritário de obras que se mantêm presas à ambientação e às preocupações mais tradicionais da narrativa no país – isto é, assuntos da esfera privada, envolvendo personagens de classe média, brancas e frequentemente intelectualizadas –, há um foco renovado nas periferias e na marginalidade, reforçado pela visibilidade que o cinema nacional tem dado a essas questões. Mas há, também, um crescimento (talvez impulsionado pelos estudos de gênero) na presença de autoras mulheres, que trazem consigo temáticas e problemas novos para a literatura. Ao lado disso, como não poderia deixar de ser, ganham destaque obras que marcam o momento de ruptura de identidades – de gênero, nacionais, afetivas, familiares etc. Daí a divisão deste dossiê em três partes: “Margens e marginalidades”, “O campo literário no feminino” e “Identidades estilhaçadas”.
Na primeira parte se encontram os textos que problematizam a produção das margens. Regina Dalcastagnè, em “Um território constestado: literatura brasileira contemporânea e as novas vozes sociais”, põe em questão os valores utilizados para se pensar a literatura, indagando a quem eles servem e o que eles, sistematicamente, vêm excluindo. A partir de uma avaliação sobre o campo literário brasileiro recente, a ensaista propõe uma reflexão mais aprofundada e atenta tanto sobre a produção vinda da periferia e de grupos marginalizados quanto da recepção crítica desses textos. É essa, justamente, a preocupação de Ricardo Barberena em “A trilogia do homem comum: a narrativa brutal de Ana Paula Maia”, que se volta à escrita das margens para pensar, sem preconceitos nem condescendência, a construção de personagens e a reconstrução literária do vivido em ambientes de violência e de pobreza. Já Laeticia Jensen Eble, no artigo “(Auto)biografias urbanas: percursos possíveis pela literatura marginal”, se desloca em direção à produção literária de autores da periferia urbana inseridos no movimento hip-hop. O foco principal do texto são as letras de rap, que, poeticamente, dão conta de uma outra realidade brasileira, mas a análise se detém ainda nas formulações críticas de seus representantes, ampliando, assim, o alcance da discussão.
Consagrada à escrita produzida por mulheres e às questões de gênero, a segunda parte do dossiê problematiza o feminino tendo por base uma epistemologia antiessencializante que propõe uma radical diferença da mulher, no sentido derrideano do termo, isto é, fora da lógica dicotômica que marcou durante séculos o falogocentrismo ocidental. Os três estudos aqui apresentados se inscrevem no que Adrienne Rich denominava, em 1984, como uma “política da localização” necessária para desconstruir as fronteiras normativas e questionar as experiências da opressão a partir da perspectiva do gênero, da classe e da raça. Assim, Virginia Leal retoma as propostas teóricas de Judith Butler e Teresa de Lauretis, para examinar os “diálogos (im)possíveis entre Editora Malagueta e Elvira Vigna”, sublinhando a importância dos novos lugares de legitimação que promovem a temática lésbica, considerada durante muito tempo como marginal. Na esteira dos potenciais teóricos que exploraram a possibilidade de um entendimento mais amplo das relações entre os sistemas de gênero e a heterossexualidade normativa, as obras destas autoras interrogam a diferença sexual enquanto ideologia geralmente inquestionada, o que implica uma naturalização da própria opressão. Tanto o projecto político e militante da Editora Malagueta que, a partir de 2008, publica obras “de lésbicas para lésbicas”, como a escrita “falsamente” policial de Elvira Vigna, editada pela Companhia das Letras, demonstram, na perspectiva de Virginia Leal, a arbitrariedade das normas hegemônicas e repensam o caráter essencialista das categorias homem/mulher, promovendo um descentramento identitário que põe em causa a própria noção de gênero, construindo novos lugares de enunciação. Em “Escolhas inclusivas? A personagem na pena das escritoras brasileiras/paranaenses contemporâneas”, Lúcia Zolin considera um outro campo cultural da produção feminina, geograficamente situado, resgatando a escrita de autoras periféricas para desenhar uma cartografia exaustiva de práticas discursivas singulares, tendo em conta a noção de representação proposta por Pierre Bourdieu. Em seu exame minucioso de um corpus abundante e representativo, a ensaista se apoia na metodologia desenvolvida por Regina Dalcastagnè para delinear o perfil da personagem do romance brasileiro contemporâneo entre 1990 e 2004, o que lhe permite elaborar, a partir das obras consideradas, questões relacionadas com o gênero, a orientação sexual, a cor, a etnia e a classe social, pondo em evidência as opções estéticas e ideológicas das escritoras paranaenses contemporâneas que rompem com o silenciamento subalterno e promovem sucessivos deslocamentos em relação às vozes dominantes, pertencentes a homens brancos, heterossexuais e de classe média. Por seu lado, Claire Williams aborda em “Não existe lugar como a nossa casa, ou, o retorno de Ponciá Vicêncio”, a obra de Conceição Evaristo, representando outra forma de marginalidade ilustrada pelas mulheres negras, invisíveis e silenciosas, apesar de sua importância na sociedade brasileira. Baseando-se na novela Ponciá Vicêncio, de 2003, a estudiosa analisa as implicações do percuso disfórico de uma negra que migra da roça para a cidade grande e sonha possuir uma casa própria, cuja simbologia é complexa. O tema da viagem, as dificuldades de adaptação, os processos de subjectivação e a denúncia da condição dos negros constituem alguns dos aspectos postos em evidência nesta obra que equaciona a identidade dos afrobrasileiros marginalizados. Encontramos assim nestes três estudos a imbricação de algumas modalidades de “localização” que se cruzam e interligam, convergindo no questionamento das fronteiras epistêmicas abertas sobre novas formas de pensar e agir, que o leitor é convidado a repensar.
O debate sobre as novas formas de pensar e agir prossegue na terceira e última deste dossiê que interroga o colapso das identidades na contemporaneidade. No Artigo “A contemporaneidade in extremis : desolação e violência nos romances Onze e As iniciais de Bernardo Carvalho”, Paulo Thomaz propõe uma reflexão sobre a possibilidade da literatura brasileira contemporânea ainda conseguir pensar o mundo fora das convenções. É neste sentido que o ensaista lê a obra de Bernardo Carvalho e analisa a presença da lógica do paradoxo nos romances Onze e As iniciais, elemento articulador, segundo ele, de uma experiência agônica do mundo contemporâneo. A subversão das convenções constitui, igualmente, o ponto de partida do estudo de Anderson Luís Nunes da Mata, “Como vai a família? As reconfigurações da instituição familiar no imaginário do romance brasileiro contemporâneo”. Em seu texto, o ensaista observa as transformações dos modos de representação da família brasileira nas narrativas contemporâneas, e, em particular, após o abandono dos modelos alegóricos. Segundo Anderson da Mata, a literatura contemporânea tende a privilegiar novas modalidades representacionais, calcadas na constituição de comunidades mínimas, domésticas, atadas pelo afeto ou pelas experiências compartilhadas. A discussão sobre a família prossegue, com outro enfoque, em “O relato da [desa]filiação e o romance brasileiro da década de 1980” de José Leonardo Tonus que questiona a presença da temática da filiação na ficção brasileira pós-ditatorial e nos chamados relatos de ou sobre a imigração. Mais do que o desejo de contrução, o que está em jogo nestes romances é a constatação de uma fratura que se manifesta, segundo o ensaista, pela impossibilidade de exumação e de conservação das memórias individual e coletiva. O imigrante face à contemporaneidade constitui o último trabalho deste dossiê consagrado à literatura brasileira contemporânea. A partir da noção de “acervo”, Maria Isabel Edom Pires debate, em “O imigrante alemão no romance brasileiro da segunda metade do século XX”, a permanência dos paradimas representacionais na constituição da figura do imigrante alemão na literatura brasileira cujos relatos formam um ato, não propriamente inaugural, mas de inventário de experiências do desajuste, do insulamento e do estilhaçamento identitário.

Os organizadores
Paris-Brasília, Setembro de 2012